Sobre a feitiçaria na Madeira há um documento extraordinário: os registos da visita da Inquisição de 1618. Graças a eles conhecemos os nomes, as idades e as práticas de várias mulheres do Funchal acusadas de «superstição».
A ilha tem também lendas próprias e festas religiosas populares que não existem em mais nenhum lugar do país.
Nesta página separamos o que é história documentada, o que é lenda e o que é devoção popular.
A visita da Inquisição de 1618 (facto histórico)
A Madeira nunca teve tribunal da Inquisição. O Santo Ofício enviava visitadores, que percorriam a ilha a receber confissões e denúncias. Houve duas visitações: em 1591–1592 e em 1618.
| Campo | Informação |
|---|---|
| Visitador | Francisco Cardoso do Tornéo |
| Período | 7 de janeiro a 30 de setembro de 1618 |
| Locais | Funchal (sobretudo), Calheta, Ponta do Sol, Santa Cruz |
| Registos | 36 confissões e 75 denúncias |
| Delitos | Superstição, bigamia, proposições heréticas, sodomia, solicitação |
A visitação de 1618 é a mais bem conhecida. O historiador Bruno Abreu Costa estudou-a em dois artigos no Arquivo Histórico da Madeira (2021 e 2023).
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As «feiticeiras» do Funchal
Na visita de 1618, a superstição foi o delito mais denunciado: 28 denúncias, contra apenas 2 confissões. O estudo identifica 17 mulheres acusadas destas práticas.
Quem eram:
- todas mulheres, entre os 18 e os 53 anos, muitas delas casadas;
- quase todas do Funchal;
- de origens muito diferentes: cristãs-velhas, mulatas, uma «mourisca», mulheres negras (uma delas forra) e uma castelhana, Isabel Tavares, com fama de já ter sido degredada;
- lavradoras, vendedeiras e criadas, algumas pobres.
O que procuravam
As práticas descritas tinham três objetivos:
- Saber de ausentes: se um marido ou um filho levado cativo estava vivo ou morto.
- Encontrar objetos furtados e descobrir o ladrão.
- Questões de amor: casamentos e maridos «amancebados».
São as preocupações de uma ilha de marinheiros, emigrantes e cativos, onde muitas mulheres viviam sem notícias dos homens.
As técnicas (descritas, não ensinadas)
- A sorte da peneira e da tesoura: duas pessoas seguravam uma peneira suspensa pelas pontas de uma tesoura e faziam uma pergunta; o movimento da peneira dava a «resposta». Era uma adivinhação conhecida em toda a Europa.
- Orações às estrelas, incluindo a «estrela» dos Reis Magos.
- Os «fervedouros»: aquecer ou queimar objetos numa panela enquanto se diziam palavras.
- Invocações de figuras celestes (a Virgem, São Pedro e São Paulo) e de figuras infernais, com nomes curiosos como «Mana Marta» e o «Cavaleiro Anás».
O que o estudo concluiu
Nenhuma destas mulheres falou de um pacto com o diabo. A relação com as entidades era uma troca: «rezo-vos, se me fizerdes o que vos peço».
E nenhuma das 28 denúncias deu origem a processo no tribunal de Lisboa. Algumas mulheres já tinham sido castigadas antes pela justiça do bispo. Como no continente, a Inquisição portuguesa foi muito menos dura com a feitiçaria do que a caça às bruxas de outros países europeus.
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A lenda de Machim (lenda)
A lenda mais famosa da ilha conta que dois amantes ingleses, Roberto Machim e Ana de Arfet, fugiram de Inglaterra no século XIV. Uma tempestade levou-os à Madeira, onde ambos morreram. Machim teria deixado uma cruz junto ao túmulo da amada, e o nome Machico viria dele.
A história foi contada, entre outros, por D. Francisco Manuel de Melo na Epanáfora Amorosa (1654). Não há documentos que a confirmem: é uma lenda fundadora, não um facto histórico.
Devoção popular: a Senhora do Monte e as Missas do Parto
Nossa Senhora do Monte
É a padroeira da Madeira, declarada pelo papa Pio VII a 21 de julho de 1804. Segundo uma lenda de data incerta, a Virgem apareceu a uma pastorinha no Terreiro da Luta.
A festa faz-se a 14 e 15 de agosto e é o arraial religioso mais concorrido da ilha. Muitos devotos cumprem promessas, levando velas grandes ou figuras de cera de partes do corpo, como ex-votos.
As Missas do Parto
São uma novena em honra de Nossa Senhora antes do Natal, de 15 a 23 ou de 16 a 24 de dezembro, muitas vezes de madrugada. São uma tradição muito própria da Madeira e do Porto Santo.
Uma curiosidade: o «Feiticeiro do Norte»
Manuel Gonçalves (c. 1858–1927), conhecido como «Feiticeiro do Norte», é uma figura muito lembrada na cultura popular madeirense. Apesar da alcunha, não era feiticeiro: era um poeta popular, cujos versos circularam em folhetos de cordel.
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Fontes
- Bruno Abreu Costa, «A Superstição perante o Inquisidor (Madeira, 1618)», Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, n.º 3, 2021, pp. 137–174 — ahm-abm.madeira.gov.pt (PDF)
- Bruno Abreu Costa, «Subsídios para o Estudo do Quotidiano no Arquipélago da Madeira: o Amor e a Luxúria (1618)», Arquivo Histórico da Madeira, Nova Série, n.º 5, 2023, pp. 143–185 — ahm-abm.madeira.gov.pt
- «Lenda de Machim», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Nossa Senhora do Monte», Folclore da Madeira — folcloremadeira.com
- «Missas do Parto nas paróquias madeirenses», Jornal da Madeira, 11/12/2023 — jornaldamadeira.com