O lobisomem português não é o monstro peludo dos filmes. Nas aldeias, era uma pessoa marcada por um destino: alguém que, em certas noites, tinha de sair de casa, mudar de forma e «correr o fado» até ao amanhecer.
As recolhas etnográficas do século XIX mostram uma crença muito viva no Norte, nas Beiras e no Alentejo. E mostram também uma coisa curiosa: o lobisomem português raramente era um lobo.
Nesta página separamos três coisas diferentes: a crença popular, a lenda contada em cada terra e um caso histórico real, do outro lado da fronteira.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Lobisomem; lobis-homem; lobishomem |
| Tipo | Figura do folclore (pessoa que muda de forma) |
| Primeira menção em português | Cancioneiro Geral (1516) |
| Causa, segundo a crença | Um «fado» ou sina, muitas vezes do sétimo filho |
| Formas | Burro, cavalo, cão, bode, por vezes lobo |
| Figura feminina próxima | A peeira, a «fada dos lobos» |
Uma palavra antiga
A palavra junta lobo e homem. Já aparece no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), num poema de Álvaro de Brito, que chama a alguém «danado lobisomem» como insulto.
Ou seja: no início do século XVI a figura era tão conhecida que servia de ofensa num poema de corte.
O «fado» do lobisomem (crença)
A palavra-chave é fado: um destino que a pessoa não escolheu. Daí as expressões «correr o fado» ou «correr o fadário».
Alexandre Herculano, num texto sobre as crenças da Beira Baixa reunido nos seus Opúsculos, descreveu-os como pessoas que têm «o fado ou sina» de se despirem de noite no meio de um caminho, sobretudo numa encruzilhada. Ali espojavam-se no chão onde se tinha espojado um animal e tomavam a forma desse animal.
Os elementos repetem-se de terra para terra:
- a transformação acontece de noite, muitas vezes à meia-noite;
- começa numa encruzilhada;
- o lobisomem tem de passar por lugares marcados: adros de igrejas, cemitérios, outras encruzilhadas;
- ao amanhecer, volta à forma humana, cansado e sem memória clara.
O sétimo filho
A explicação mais comum é a ordem de nascimento: o sétimo filho rapaz seguido de um casal seria lobisomem. A sétima filha seguida, em algumas versões, seria bruxa.
Não há uma regra única. O investigador Paulo Correia, que estudou estas narrativas, nota que noutras terras o número muda (o oitavo, o nono, o décimo terceiro filho).
Em várias versões, o batismo e a escolha do padrinho — por vezes o irmão mais velho — serviriam para evitar o fado. A mesma ideia do «sétimo filho marcado» aparece nos saludadores, mas aí com um dom de curar.
Que animal?
O lobisomem português aparece muitas vezes como cavalo no Norte e como burro ou cão no Sul. Também se fala de bode e de porco. O lobo é apenas uma das formas.
Como se «quebrava» o fado (crença)
As recolhas concordam num ponto: o encanto quebrava-se com sangue. Leite de Vasconcelos registou na Revista Lusitana a ideia de que, para desencantar um lobisomem, era preciso «fazer sangue», isto é, feri-lo levemente.
Os meios mais citados:
- picá-lo com uma aguilhada (a vara pontiaguda dos bois), uma agulha ou a ponta de uma faca;
- queimar a roupa que ele deixou na encruzilhada.
Dizia-se também que o lobisomem não fazia mal a quem o deixasse passar. Herculano anotou que evitavam os caminhos com luz. Muitas lendas acabam com o desencantado a agradecer a quem o feriu.
A lenda em cada terra
Cada região tem a sua história:
- Tabuaço (Beira): a lenda do rapaz que tinha de «correr sete adros» até alguém o picar numa encruzilhada.
- Reguengos de Monsaraz (Alentejo): o sétimo filho transforma-se em burro ou cão à meia-noite; queimar-lhe a roupa quebraria o encanto.
- Trás-os-Montes: o lobisomem aparece ao lado das bruxas e do diabo nas histórias contadas ao serão.
➜ Alentejo: lendas e feitiçaria
➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas
A peeira
A versão feminina mais conhecida é a peeira (ou «fada dos lobos»): uma rapariga que, por fado, andava com as alcateias e as guiava. Aparece nas lendas de Portugal e da Galiza.
Os estudiosos do século XIX
O lobisomem interessou os primeiros etnógrafos portugueses:
- Consiglieri Pedroso dedicou-lhe um capítulo, «O Lobisomem», nas suas Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa (anos 1880). Defendia que as versões portuguesas tinham pormenores que os grandes autores europeus desconheciam.
- José Leite de Vasconcelos, autor das Tradições Populares de Portugal (1882), registou na Revista Lusitana crenças sobre o lobisomem e o «corredor» (quem «corre» o fado).
Para estes autores, o lobisomem era um resto de crenças muito antigas sobre a transformação em animais.
Um caso real: Romasanta, o «homem-lobo de Allariz»
Aqui saímos da lenda e entramos na história documentada.
Manuel Blanco Romasanta nasceu em 1809 em Regueiro (Esgos, Ourense), na Galiza. Vendedor ambulante, guiava pessoas pelas serras. Várias mulheres e crianças que partiram com ele nunca chegaram ao destino.
Preso em 1852, confessou treze mortes e disse que as cometera transformado em lobo, por causa de uma maldição. O processo, em Allariz, ficou conhecido como a «causa contra o homem-lobo».
- Em 6 de abril de 1853 foi condenado à morte (garrote) por nove homicídios. Nos outros quatro, os peritos concluíram que podia ter havido ataques de lobos verdadeiros.
- Um hipnotizador francês, identificado como «Mr. Phillips», escreveu ao ministro da Justiça a defender que Romasanta sofria de licantropia (uma perturbação mental).
- A rainha Isabel II comutou a pena em prisão perpétua (1854).
- Morreu na prisão de Ceuta em 14 de dezembro de 1863.
O que o caso mostra não é que existam lobisomens. Mostra como a crença popular podia servir de desculpa a um assassino e como a medicina do século XIX começou a ver a «licantropia» como um problema mental.
Continue a ler
➜ O diabo na tradição portuguesa
Fontes
- Paulo Correia, «Running the Fate: Portuguese Belief Narratives About Werewolves», em Werewolf Legends, Palgrave Macmillan, 2023 — link.springer.com
- Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, org. João Leal, Dom Quixote, 1988 — run.unl.pt (PDF)
- José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882.
- «Lobisomem», Wikipédia — pt.wikipedia.org
- «Manuel Blanco Romasanta», Wikipedia — en.wikipedia.org