Saltar para o conteúdo

🏺 Tradição Portuguesa

O lobisomem em Portugal

O lobisomem no folclore português: o «fado» do sétimo filho, as encruzilhadas, como se dizia que se quebrava o encanto e o caso real de Romasanta (Galiza, 1853).

5 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha
  2. Uma palavra antiga
  3. O «fado» do lobisomem (crença)
  4. Como se «quebrava» o fado (crença)
  5. A lenda em cada terra
  6. Os estudiosos do século XIX
  7. Um caso real: Romasanta, o «homem-lobo de Allariz»
  8. Continue a ler
  9. Fontes

O lobisomem português não é o monstro peludo dos filmes. Nas aldeias, era uma pessoa marcada por um destino: alguém que, em certas noites, tinha de sair de casa, mudar de forma e «correr o fado» até ao amanhecer.

As recolhas etnográficas do século XIX mostram uma crença muito viva no Norte, nas Beiras e no Alentejo. E mostram também uma coisa curiosa: o lobisomem português raramente era um lobo.

Nesta página separamos três coisas diferentes: a crença popular, a lenda contada em cada terra e um caso histórico real, do outro lado da fronteira.

Ficha

Campo Informação
Nome Lobisomem; lobis-homem; lobishomem
Tipo Figura do folclore (pessoa que muda de forma)
Primeira menção em português Cancioneiro Geral (1516)
Causa, segundo a crença Um «fado» ou sina, muitas vezes do sétimo filho
Formas Burro, cavalo, cão, bode, por vezes lobo
Figura feminina próxima A peeira, a «fada dos lobos»

Uma palavra antiga

A palavra junta lobo e homem. Já aparece no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516), num poema de Álvaro de Brito, que chama a alguém «danado lobisomem» como insulto.

Ou seja: no início do século XVI a figura era tão conhecida que servia de ofensa num poema de corte.

O «fado» do lobisomem (crença)

A palavra-chave é fado: um destino que a pessoa não escolheu. Daí as expressões «correr o fado» ou «correr o fadário».

Alexandre Herculano, num texto sobre as crenças da Beira Baixa reunido nos seus Opúsculos, descreveu-os como pessoas que têm «o fado ou sina» de se despirem de noite no meio de um caminho, sobretudo numa encruzilhada. Ali espojavam-se no chão onde se tinha espojado um animal e tomavam a forma desse animal.

Os elementos repetem-se de terra para terra:

  • a transformação acontece de noite, muitas vezes à meia-noite;
  • começa numa encruzilhada;
  • o lobisomem tem de passar por lugares marcados: adros de igrejas, cemitérios, outras encruzilhadas;
  • ao amanhecer, volta à forma humana, cansado e sem memória clara.

➜ A encruzilhada na tradição

O sétimo filho

A explicação mais comum é a ordem de nascimento: o sétimo filho rapaz seguido de um casal seria lobisomem. A sétima filha seguida, em algumas versões, seria bruxa.

Não há uma regra única. O investigador Paulo Correia, que estudou estas narrativas, nota que noutras terras o número muda (o oitavo, o nono, o décimo terceiro filho).

Em várias versões, o batismo e a escolha do padrinho — por vezes o irmão mais velho — serviriam para evitar o fado. A mesma ideia do «sétimo filho marcado» aparece nos saludadores, mas aí com um dom de curar.

➜ Os saludadores

Que animal?

O lobisomem português aparece muitas vezes como cavalo no Norte e como burro ou cão no Sul. Também se fala de bode e de porco. O lobo é apenas uma das formas.

Como se «quebrava» o fado (crença)

As recolhas concordam num ponto: o encanto quebrava-se com sangue. Leite de Vasconcelos registou na Revista Lusitana a ideia de que, para desencantar um lobisomem, era preciso «fazer sangue», isto é, feri-lo levemente.

Os meios mais citados:

  • picá-lo com uma aguilhada (a vara pontiaguda dos bois), uma agulha ou a ponta de uma faca;
  • queimar a roupa que ele deixou na encruzilhada.

Dizia-se também que o lobisomem não fazia mal a quem o deixasse passar. Herculano anotou que evitavam os caminhos com luz. Muitas lendas acabam com o desencantado a agradecer a quem o feriu.

A lenda em cada terra

Cada região tem a sua história:

  • Tabuaço (Beira): a lenda do rapaz que tinha de «correr sete adros» até alguém o picar numa encruzilhada.
  • Reguengos de Monsaraz (Alentejo): o sétimo filho transforma-se em burro ou cão à meia-noite; queimar-lhe a roupa quebraria o encanto.
  • Trás-os-Montes: o lobisomem aparece ao lado das bruxas e do diabo nas histórias contadas ao serão.

➜ Beiras: tradições ocultas

➜ Alentejo: lendas e feitiçaria

➜ Trás-os-Montes: tradições mágicas

A peeira

A versão feminina mais conhecida é a peeira (ou «fada dos lobos»): uma rapariga que, por fado, andava com as alcateias e as guiava. Aparece nas lendas de Portugal e da Galiza.

Os estudiosos do século XIX

O lobisomem interessou os primeiros etnógrafos portugueses:

  • Consiglieri Pedroso dedicou-lhe um capítulo, «O Lobisomem», nas suas Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa (anos 1880). Defendia que as versões portuguesas tinham pormenores que os grandes autores europeus desconheciam.
  • José Leite de Vasconcelos, autor das Tradições Populares de Portugal (1882), registou na Revista Lusitana crenças sobre o lobisomem e o «corredor» (quem «corre» o fado).

Para estes autores, o lobisomem era um resto de crenças muito antigas sobre a transformação em animais.

Um caso real: Romasanta, o «homem-lobo de Allariz»

Aqui saímos da lenda e entramos na história documentada.

Manuel Blanco Romasanta nasceu em 1809 em Regueiro (Esgos, Ourense), na Galiza. Vendedor ambulante, guiava pessoas pelas serras. Várias mulheres e crianças que partiram com ele nunca chegaram ao destino.

Preso em 1852, confessou treze mortes e disse que as cometera transformado em lobo, por causa de uma maldição. O processo, em Allariz, ficou conhecido como a «causa contra o homem-lobo».

  • Em 6 de abril de 1853 foi condenado à morte (garrote) por nove homicídios. Nos outros quatro, os peritos concluíram que podia ter havido ataques de lobos verdadeiros.
  • Um hipnotizador francês, identificado como «Mr. Phillips», escreveu ao ministro da Justiça a defender que Romasanta sofria de licantropia (uma perturbação mental).
  • A rainha Isabel II comutou a pena em prisão perpétua (1854).
  • Morreu na prisão de Ceuta em 14 de dezembro de 1863.

O que o caso mostra não é que existam lobisomens. Mostra como a crença popular podia servir de desculpa a um assassino e como a medicina do século XIX começou a ver a «licantropia» como um problema mental.

Continue a ler

➜ Superstições portuguesas

➜ O diabo na tradição portuguesa

➜ Tradição portuguesa: índice

Fontes

  • Paulo Correia, «Running the Fate: Portuguese Belief Narratives About Werewolves», em Werewolf Legends, Palgrave Macmillan, 2023 — link.springer.com
  • Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e Outros Escritos Etnográficos, org. João Leal, Dom Quixote, 1988 — run.unl.pt (PDF)
  • José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Porto, 1882.
  • «Lobisomem», Wikipédia — pt.wikipedia.org
  • «Manuel Blanco Romasanta», Wikipedia — en.wikipedia.org

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Tradição Portuguesa ›