Os djinns (ou jinn) são seres invisíveis que o Corão reconhece como reais. Do mundo islâmico vêm também tratados de talismãs, quadrados mágicos e magia das letras que influenciaram a Europa medieval.
Mas o islão não é uma tradição mágica. A teologia islâmica condena a magia (sihr) e distingue-a das orações de proteção aceites. Esta página separa o que está no Corão, o que é tradição popular e o que é literatura esotérica.
Aqui explicamos a história e as crenças. Não ensinamos a invocar djinns nem a fazer talismãs.
Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Nome | Djinn, jinn (árabe jinn; singular jinnī) |
| Outros nomes | Génio (via francês génie), djim |
| Tipo | Seres espirituais da tradição árabe e islâmica |
| Primeira fonte | Crenças da Arábia pré-islâmica; Corão (séc. VII) |
| Termos-chave | Sihr (magia), ruqya (recitação de proteção), ʿilm al-ḥurūf (ciência das letras) |
Os djinns no Corão
A palavra vem da raiz árabe j-n-n, ligada à ideia de esconder. Os djinns são, literalmente, «os ocultos».
Segundo o Corão, foram criados de fogo sem fumo (55:15), enquanto os humanos vêm do barro. Têm vontade livre: há djinns crentes e descrentes, e serão julgados como os humanos.
- A sura 72 chama-se precisamente Al-Jinn e descreve um grupo de djinns que ouve a recitação do Corão.
- Iblis, que recusa prostrar-se diante de Adão, é descrito como «um dos djinns» (18:50).
- Na história de Salomão, um djinn poderoso — um ʿifrīt — oferece-se para trazer o trono da rainha de Sabá (27:39).
➜ O rei Salomão na tradição mágica
Antes do islão
Na Arábia pré-islâmica, os djinns eram espíritos de lugares desertos. Segundo as fontes, eram temidos como causa de doenças e loucura, e alguns eram objeto de culto. O islão manteve a crença, mas proibiu esse culto.
Do djinn ao «génio»
A palavra «génio» da lâmpada vem de outro lado: do latim genius. Os tradutores franceses das Mil e Uma Noites (início do século XVIII) usaram génie para traduzir jinn, e o nome ficou.
O que é o sihr
Sihr é a palavra árabe para magia ou feitiçaria. A passagem mais citada é o versículo 2:102, que fala de Harut e Marut, dois anjos na Babilónia que ensinavam magia aos homens, avisando que era uma provação.
Na lei islâmica, a prática do sihr é considerada pecado grave. Os juristas discordaram sobre se a magia tem efeito real ou se é ilusão, e sobre as penas. Alguns, como Muhammad ibn Abd al-Wahhab (séc. XVIII), defenderam a pena de morte.
Proteção aceite: a ruqya
Contra a magia e o mau-olhado, a tradição islâmica recomenda a ruqya: a recitação de passagens do Corão. As duas últimas suras, 113 (Al-Falaq) e 114 (An-Nas), chamam-se «as duas de refúgio» (al-muʿawwidhatayn) e são as mais usadas.
Uma tradição (hadith) conta que o próprio Maomé foi alvo de um feitiço de um homem chamado Labid ibn al-Aʿsam. As versões deste relato divergem, e os comentadores discutiram-no muito.
➜ O mau-olhado: a verdade sobre o olho gordo
Talismãs e a ciência das letras
Apesar das condenações, o mundo islâmico produziu uma rica literatura sobre talismãs, quadrados mágicos (wafq) e o valor numérico das letras e dos nomes de Deus. É a chamada ʿilm al-ḥurūf, «ciência das letras».
Os estudiosos notam que muitos destes talismãs funcionavam como uma oração escrita: levavam versículos e nomes divinos, não invocações de demónios.
O Shams al-Maʿārif
O livro mais famoso é o Shams al-Maʿārif («O Sol do Conhecimento»), atribuído a Ahmad al-Buni. Al-Buni foi um sufi nascido em Buna (atual Annaba, na Argélia), que viveu no Egito e morreu por volta de 1225.
A autoria é discutida. Investigadores como Jean-Charles Coulon mostram que a versão hoje impressa contém anacronismos e reúne textos atribuídos a al-Buni por autores posteriores.
- Conteúdo: quadrados mágicos, combinações de letras e números, os nomes de Deus e a relação com djinns e anjos.
- Receção: criticado por Ibn Taymiyya; valorizado por algumas ordens sufis; proibido na Arábia Saudita.
Os quadrados mágicos aparecem também na magia europeia, nos selos planetários de Agrippa.
➜ Selos planetários e quadrados mágicos
O Picatrix: do al-Andalus à Europa
Um dos tratados mais influentes nasceu na Península Ibérica. O Ghāyat al-Ḥakīm («O Objetivo do Sábio») é um manual de magia astral e talismãs, escrito em árabe no al-Andalus, provavelmente no século X ou XI.
Foi traduzido para castelhano por ordem de Afonso X de Castela, entre 1256 e 1258, e depois para latim com o nome Picatrix. Circulou em manuscritos pela Europa e influenciou a magia do Renascimento.
Na cultura portuguesa
A marca islâmica ficou no folclore peninsular. As mouras encantadas, que guardam tesouros em fontes e penedos, não são djinns, mas nasceram da memória popular do passado muçulmano. A mão de Fátima (hamsa) é outro amuleto partilhado entre culturas.
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Fontes
- Corão, suras 2:102, 18:50, 27:39, 55:15, 72, 113 e 114 — Quran.com
- Wikipedia (inglês), Jinn e Islamic views on magic
- Wikipedia (inglês), Shams al-Ma'arif e Ahmad al-Buni
- Wikipedia (inglês), Picatrix
- Jean-Charles Coulon, La Magie en terre d'islam au Moyen Âge (CTHS, 2017)