Saltar para o conteúdo

📚 Grimórios

De Praestigiis Daemonum: o livro de Johann Weyer contra a caça às bruxas

De Praestigiis Daemonum de Johann Weyer (Basileia, 1563): o livro que defendeu as acusadas de bruxaria como doentes, a resposta de Jean Bodin e o contraste com Portugal.

4 min de leitura · Revisto em
Neste artigo
  1. Ficha da obra
  2. O autor
  3. O que defende o livro
  4. Edições e o apêndice dos demónios
  5. A reação: Jean Bodin
  6. Influência
  7. Pai da psiquiatria?
  8. O contraste com Portugal
  9. Onde ler
  10. Continue a ler
  11. Fontes

Em 1563, em Basileia, um médico alemão publicou um livro corajoso para a época. Chamava-se De praestigiis daemonum — «Sobre as ilusões dos demónios». O autor era Johann Weyer.

A ideia central era simples e perigosa: as mulheres acusadas de bruxaria não tinham poderes. Muitas eram idosas, doentes ou perturbadas, e não deviam ir para a fogueira.

Não é um grimório. É um livro sobre demónios, magia e bruxaria escrito para desmontar a perseguição. Por isso tem lugar nesta biblioteca, ao lado do Malleus Maleficarum, que combate.

Ficha da obra

Campo Informação
Título Sobre as ilusões dos demónios
Nome original De praestigiis daemonum et incantationibus ac veneficiis
Data 1563 (1.ª edição)
Local Basileia, impressor Johannes Oporinus
Autor Johann Weyer (ou Wier), médico (1515–1588)
Idioma Latim; traduções alemã (1565) e francesa (1567)
Tipo Tratado de demonologia e medicina contra a caça às bruxas

O autor

Johann Weyer era médico da corte do duque Guilherme de Cleves, na Renânia. Em jovem tinha sido aluno de Cornélio Agrippa, que também defendera uma acusada de bruxaria.

Weyer acreditava no diabo, como quase todos no seu tempo. A sua revolução não foi negar o demónio, foi negar que as «bruxas» tivessem feito aquilo de que eram acusadas.

➜ Cornélio Agrippa

O que defende o livro

Descrevemos as ideias da obra; os argumentos são do século XVI e devem ler-se nesse contexto.

  • O pacto com o diabo é uma ilusão. O demónio engana a imaginação, mas a pessoa não ganha poder nenhum.
  • As acusadas são sobretudo mulheres idosas, muitas vezes atingidas pela «melancolia», o termo médico da época para vários sofrimentos mentais.
  • As confissões não provam nada. Eram fruto da doença, do medo ou da tortura.
  • Distinção importante: quem envenena de facto (os venefici) comete um crime real e deve ser punido. Quem apenas imagina um pacto precisa de tratamento e instrução, não de castigo.

Weyer critica abertamente o Malleus Maleficarum, o manual dos caçadores de bruxas.

➜ Malleus Maleficarum

Edições e o apêndice dos demónios

O livro teve grande procura. Houve edições latinas em 1563, 1564, 1566, 1568, 1577 e 1583. A de 1568 já anuncia seis livros, «aumentados e revistos».

Em 1577, Weyer juntou-lhe um apêndice: a Pseudomonarchia Daemonum, um catálogo de 69 demónios. Publicou-o para expor as «imposturas» dos magos, não para servir de manual. No mesmo ano saiu De lamiis, uma versão resumida dos seus argumentos.

O apêndice tem página própria nesta biblioteca.

➜ Pseudomonarchia Daemonum

A reação: Jean Bodin

A resposta mais dura veio de França. Em 1580, o jurista Jean Bodin publicou De la démonomanie des sorciers, um dos livros mais influentes da caça às bruxas.

Bodin defendia o pacto com o diabo como crime real e pedia processos com menos garantias para os acusados. Para ele, tratar as bruxas como doentes era precisamente o engano que o demónio queria. Atacou Weyer de frente.

Também escreveram contra Weyer o médico suíço Thomas Erastus e, mais tarde, o rei Jaime VI da Escócia, na sua Daemonologie (1597).

Influência

  • Alguns príncipes alemães suspenderam a tortura e as execuções depois do livro, embora as perseguições tenham regressado mais tarde.
  • Nos Países Baixos, a obra contribuiu para o fim dos processos de bruxaria.
  • Em Inglaterra, Reginald Scot inspirou-se nela em The Discoverie of Witchcraft (1584).

Pai da psiquiatria?

No século XX, Gregory Zilboorg e George Henry apresentaram Weyer como fundador da psiquiatria moderna. A imagem ficou popular.

Historiadores como Patrick Vandermeersch (1991) consideram-na um mito: Weyer não opunha a medicina à teologia; raciocinava como médico e como cristão do seu tempo. O seu mérito real foi outro: compaixão pelas acusadas e exigência de prova.

O contraste com Portugal

Portugal viveu esta época de forma muito diferente.

A Inquisição portuguesa (1536–1821) julgou feitiçaria, mas o seu alvo principal foram os cristãos-novos. Segundo José Pedro Paiva, entre 1600 e 1774 os tribunais de Lisboa, Coimbra e Évora abriram 818 processos por práticas mágicas. Só quatro réus foram condenados à morte. As penas habituais eram o degredo, a prisão e a humilhação pública.

Paiva nota ainda a fraca difusão dos tratados de demonologia em Portugal. O grande debate entre Weyer e Bodin quase não teve eco no país. Entre os processados, o grupo maior (cerca de um terço) era o dos curandeiros, gente que benzia e curava.

➜ Processos de feitiçaria na Inquisição portuguesa

➜ Benzedeiras e rezadeiras

➜ Bruxaria em Portugal

Onde ler

O texto latino está em domínio público. A edição de 1568 pode ler-se digitalizada no Internet Archive. Não conhecemos tradução portuguesa.

Continue a ler

➜ A caça às bruxas na Europa

➜ A Inquisição em Portugal

➜ Demonologia

➜ Biblioteca de grimórios

Fontes

  • Johann Weyer, De praestigiis daemonum… libri sex, aucti & recogniti, Basileia, 1568 — archive.org
  • «Johann Weyer», Wikipedia — en.wikipedia.org e de.wikipedia.org
  • Patrick Vandermeersch, «The Victory of Psychiatry over Demonology: The Origin of the Nineteenth-Century Myth», History of Psychiatry, 2 (1991), pp. 351–363 — PDF
  • José Pedro Paiva, «The Persecution of Popular Superstition in 17th and 18th Century Portugal» — texto em linha
  • «Jean Bodin», Wikipedia — en.wikipedia.org

A minha nota

Escreva aqui as suas anotações. Ficam guardadas só neste dispositivo — não são enviadas para nenhum servidor.

Continue a explorar

Ver tudo em Grimórios ›