É a última carta dos arcanos maiores. Uma figura quase nua, envolta num lenço, parece dançar no ar dentro de uma grande coroa oval de folhas. Nos quatro cantos, entre nuvens, aparecem um anjo, uma águia, um touro e um leão.
O Mundo representa, na tradição de leitura, a conclusão: um ciclo que se fecha bem, a sensação de estar inteiro e no lugar certo, e a abertura para o que vem a seguir.

Ficha
| Campo | Informação |
|---|---|
| Arcano | Maior |
| Número | XXI |
| Nome em Marselha / em inglês | Le Monde / The World |
| Golden Dawn | Letra hebraica Tav; planeta Saturno (listas posteriores juntam o elemento terra) |
| Palavras-chave (direita) | conclusão, realização, integração, plenitude, viagem |
| Palavras-chave (invertida) | ciclo por fechar, estagnação, atraso, falta de remate |
O desenho
- A figura que dança, com um lenço violeta à volta do corpo. Na leitura simbólica, é o movimento em equilíbrio: tudo gira, mas nada cai.
- Os dois bastões, um em cada mão. Muitos leitores ligam-nos ao bastão único do Mago, a primeira carta numerada: aqui o poder aparece a dobrar.
- A coroa oval de louros, presa em cima e em baixo por fitas vermelhas em forma de laço.
- Os quatro seres nos cantos: o homem (ou anjo), a águia, o touro e o leão.
Estes quatro seres são o tetramorfo da arte cristã. Vêm das visões de Ezequiel (cap. 1) e do Apocalipse (cap. 4), e a tradição cristã associou-os aos quatro evangelistas: Mateus (homem), Marcos (leão), Lucas (touro) e João (águia). O ocultismo do séc. XIX juntou-lhes outra leitura: os quatro signos fixos do zodíaco (Aquário, Leão, Touro e Escorpião) e, através deles, os quatro elementos.
O Tarot de Marselha já tinha esta composição: a figura na coroa e os quatro seres nos cantos. Waite nota que o desenho ficou «inalterado, e na verdade inalterável».
Na história
A figura dançante é a forma que se fixou em França, mas não é a mais antiga. No baralho Visconti-Sforza (Milão, séc. XV), a carta mostra dois meninos nus (putti) a segurar uma grande moldura oval. Dentro dela há uma paisagem completa: uma cidade fortificada num monte, com muralhas, torres e uma porta, sobre um mar onde navegam barcos. É o mundo como cidade, ou como cosmos, e não como pessoa. Esta carta pertence ao grupo que alguns historiadores atribuem a um segundo pintor.
A figura dentro da coroa com os quatro seres lembra uma imagem muito comum na arte cristã medieval: Cristo em majestade dentro de uma auréola em forma de amêndoa (mandorla), rodeado pelos símbolos dos evangelistas. No tarot, esse lugar passou a ser ocupado por uma figura que muitos autores leem como feminina. O historiador do tarot Robert Place, por exemplo, identifica-a com a Sabedoria (Sofia).
No baralho Thoth de Aleister Crowley, a carta chama-se «O Universo». Em alguns baralhos modernos, a coroa foi substituída por um ouroboros, a serpente que morde a própria cauda.
➜ O Mago
O significado na tradição
Direita
«Sucesso assegurado, recompensa, viagem, caminho, emigração, fuga, mudança de lugar.» — A. E. Waite, 1910
A lista mistura duas ideias: realização e deslocação. É por isso que muitos leitores ainda associam a carta a viagens longas.
Na parte simbólica, Waite escreve que a carta representa «a perfeição e o fim do Cosmos», e «o êxtase do universo quando se compreende em Deus».
A leitura moderna centra-se na conclusão: um objetivo alcançado, uma etapa da vida que se fecha com sentido de plenitude, a integração de tudo o que se viveu. Como é a última carta, é também lida como o fim do «caminho do Louco», antes de um novo começo.
Invertida
«Inércia, fixidez, estagnação, permanência.» — A. E. Waite, 1910
Os leitores modernos leem-na invertida como um ciclo que não se consegue fechar: falta o último passo, adia-se a conclusão, ou fica-se preso numa situação que já devia ter terminado.
Na leitura: amor, trabalho e conselho
Amor. Na leitura tradicional, costuma indicar maturidade e plenitude: uma relação estável, que chegou a um bom lugar, ou a conclusão serena de uma fase.
Trabalho. Associa-se ao remate de um projeto, a objetivos cumpridos e, pela leitura de Waite, a mudanças de lugar ou trabalho no estrangeiro. Nenhuma carta garante esse resultado.
Conselho. O sentido mais comum é: fechar bem o ciclo, reconhecer o caminho feito, e só depois começar o seguinte.
O que se diz e o que se sabe
| Afirmação comum | O que se sabe |
|---|---|
| «O Mundo garante sucesso» | Waite escreveu «sucesso assegurado», mas é uma leitura simbólica; nenhuma carta garante resultados |
| «A figura sempre foi uma mulher a dançar» | No Visconti-Sforza (séc. XV) são dois meninos a segurar uma cidade |
| «Os quatro seres são os quatro elementos» | Na origem são os símbolos cristãos dos evangelistas; a leitura pelos elementos é do ocultismo moderno |
Continue a ler
➜ Carta anterior: O Julgamento
➜ O Louco
Fontes
- A. E. Waite, The Pictorial Key to the Tarot (1910), «XXI. The World» — sacred-texts.com; significados divinatórios — rider-waite.com
- Wikipedia, «The World (tarot card)» — en.wikipedia.org
- «The World · Visconti-Sforza Tarot» — globalspiritualstudies.com
- Bill Heidrick, «Tarot Correspondence Tables» (atribuições da Golden Dawn) — billheidrick.com
- Bíblia, Ezequiel 1 e Apocalipse 4.