A história da missa negra é, sobretudo, uma história de medos, acusações, escândalos e livros. Ritual praticado há houve em alguns casos, mas muito menos do que a lenda sugere.
Esta página percorre as etapas principais, com datas e fontes. Para a definição e os mitos, veja primeiro:
Os primeiros sinais: a missa usada para fazer mal
O abuso da missa para fins de feitiçaria preocupou a Igreja muito cedo, e há um exemplo peninsular.
Em 694, o XVII Concílio de Toledo, no reino visigodo que incluía o atual território português, condenou os padres que diziam missas de defuntos por pessoas vivas, para que estas morressem depressa. O castigo previsto era a deposição e a excomunhão.
Não se trata ainda de uma «missa ao Diabo». Mas mostra que, desde cedo, se acreditava que a missa podia ser desviada para prejudicar alguém.
Idade Média: paródias e acusações
Na Idade Média encontramos duas coisas diferentes, que convém não confundir.
- Paródias literárias. Estudantes e clérigos errantes escreviam «missas dos bebedores» e «missas dos jogadores», como as da coleção Carmina Burana (c. 1230). Eram sátiras, não rituais.
- Acusações. Hereges e feiticeiros eram acusados de profanar a cruz e a missa. Nos processos contra os Templários (a partir de 1307) falou-se de cuspir na cruz e de renegar Cristo, mas não de missas negras. Muitas confissões foram obtidas sob tortura.
O processo de Gilles de Rais (França, 1440) incluiu acusações de pactos e de ofícios em honra dos espíritos malditos, a par de crimes muito reais contra crianças.
Século XVI: rumores sobre os poderosos
O jurista francês Jean Bodin, num tratado sobre bruxaria de 1580, afirmou que Catarina de Médici teria mandado celebrar uma missa sacrílega. Os historiadores notam que quase não há provas externas dessa história.
O Caso dos Venenos (1677–1682)
É o episódio mais bem documentado. Uma investigação sobre envenenamentos em Paris revelou uma rede de adivinhas, vendedoras de venenos e padres renegados.
- Catherine Monvoisin, a La Voisin, foi queimada viva a 22 de fevereiro de 1680.
- O padre Étienne Guibourg foi acusado de celebrar missas sacrílegas sobre o corpo de mulheres. Foi preso para o resto da vida.
- Madame de Montespan, amante de Luís XIV, foi acusada de ter encomendado missas para manter o favor do rei. Nunca foi julgada, e as acusações assentavam em confissões.
A investigação envolveu centenas de suspeitos. Segundo os números normalmente citados, 36 pessoas foram executadas. O rei mandou encerrar o tribunal especial em 1682, para evitar mais escândalo.
Século XIX: a literatura inventa a imagem moderna
Em 1891, Joris-Karl Huysmans publicou Là-bas, com uma longa descrição de uma missa satânica em Paris. A sua principal fonte foi um padre excomungado, Joseph-Antoine Boullan.
Foi este romance, mais do que qualquer grimório, que fixou a imagem que hoje temos: altar, paramentos invertidos, invocações ao Diabo.
Século XX: do livro ao espetáculo
- 1954: H. T. F. Rhodes publica The Satanic Mass, um estudo histórico.
- 1966: Anton LaVey funda a Igreja de Satanás nos Estados Unidos.
- 1972: LaVey publica The Satanic Rituals, com uma versão própria de missa negra, assumidamente teatral e simbólica.
- 2014: uma cerimónia pública anunciada como missa negra em Oklahoma City gera forte polémica e protestos católicos.
É só no século XX, portanto, que aparecem textos completos de missa negra. São criações recentes, não a recuperação de uma tradição antiga.
E em Portugal?
A tradição popular portuguesa ligou o nome de São Cipriano às missas negras, mas essa associação é moderna. As edições antigas do Livro de São Cipriano trazem exorcismos cristãos, não missas ao Diabo.
➜ Missa negra de São Cipriano: a história real e a lenda
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➜ Missas negras: índice da secção
➜ Como era descrita uma missa negra
➜ Bruxaria satânica: história e mitos
Fontes
- «Seventeenth Council of Toledo», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Affair of the Poisons», Wikipedia — en.wikipedia.org
- «Messe noire», Wikipédia — fr.wikipedia.org
- «Black Mass», Wikipedia — en.wikipedia.org
- J.-K. Huysmans, Là-bas, Paris, 1891