Um grimório é um livro de magia: um manual com orações, conjurações, selos, talismãs e instruções rituais. A palavra vem do francês grimoire, aparentada com grammaire («gramática»): um livro de fórmulas escritas, difícil de ler para quem não era iniciado.
Muitos grimórios dizem ser antiquíssimos e escritos por reis, magos ou santos. Quase sempre essa autoria é lendária. A história real é outra: textos copiados, traduzidos e reescritos ao longo de séculos.
Nesta biblioteca encontra fichas com o que se sabe de cada obra: data real, origem, autoria verdadeira ou atribuída, conteúdo, edições e onde ler as versões em domínio público.
Cronologia dos grandes grimórios
| Obra | Data e origem |
|---|---|
| Papiros Mágicos Gregos | c. 100 a.C. – 400 d.C., Egito greco-romano |
| Picatrix (Ghāyat al-Ḥakīm) | Séc. X–XI, al-Andalus; traduzido para castelhano em 1256–1258, por ordem de Afonso X |
| Livro Jurado de Honório | Séc. XIII; primeiro registo seguro em 1347 |
| Clavícula de Salomão | Séc. XIV–XV, Itália; muitas versões até ao séc. XVIII |
| Filosofia Oculta de Agrippa | Escrita em 1510; edição completa em 1533, Colónia |
| Heptameron | Impresso em 1559; falsamente atribuído a Pedro de Abano (m. c. 1316) |
| Livro de Abramelin | Manuscritos alemães de c. 1608; tradução de Mathers em 1898 |
| Lemegeton (inclui a Goécia) | Meados do séc. XVII, manuscritos ingleses |
| Grimório do Papa Honório | Séc. XVII–XIX, França; atribuição falsa ao papa Honório III |
| Grimorium Verum | Séc. XVIII, França ou Itália; diz-se falsamente de «Mênfis, 1517» |
| Grande Grimório (Dragon Rouge) | Séc. XVIII, França; diz-se falsamente de 1521 ou 1522 |
| Petit Albert | Séc. XVIII, França; atribuído a Alberto Magno |
| Livro de São Cipriano | Península Ibérica; manuscritos referidos desde o início do séc. XVII, edições impressas do séc. XIX |
| Sexto e Sétimo Livros de Moisés | 1849, Alemanha (edição de Scheible) |
As obras, uma a uma
Papiros Mágicos Gregos
Não são um livro, mas uma coleção de papiros do Egito romano, com feitiços, hinos e rituais em grego, demótico e copta. Grande parte veio de um conjunto encontrado em Tebas e vendido por volta de 1827 pelo diplomata Jean d'Anastasi.
São as fontes mais antigas de muitas fórmulas que reaparecem, séculos depois, nos grimórios europeus. A tradução de referência é a de Hans Dieter Betz (1986).
Picatrix
Tratado árabe de magia astral e talismânica, escrito no al-Andalus. O título árabe significa «O objetivo do sábio». Foi atribuído ao matemático Maslama al-Majriti, mas essa atribuição é hoje posta em causa; fala-se por isso de «Pseudo-Majriti».
A tradução castelhana mandada fazer por Afonso X de Castela deu origem à versão latina, que circulou por toda a Europa.
Clavícula de Salomão
O grimório mais influente da magia cerimonial europeia. Atribuído ao rei Salomão, mas composto na Itália do fim da Idade Média. Ensina a preparar o mago, os instrumentos, o círculo e os pentáculos.
➜ Ficha completa: a Chave de Salomão
Heptameron
Pequeno manual de magia angélica organizado pelos sete dias da semana: para cada dia, os anjos, as horas e as conjurações. Foi impresso em 1559 com o nome de Pedro de Abano, médico de Pádua. Os historiadores consideram essa autoria falsa.
➜ Ficha completa: o Heptameron
Curiosamente, a obra cipriânica impressa mais antiga que se conserva, de 1810, usa este mesmo nome: Heptameron ou elementos mágicos.
Lemegeton e Goécia
Também chamado Chave Menor de Salomão. Reúne cinco livros; o primeiro, a Ars Goetia, lista 72 espíritos com os seus selos. A lista vem sobretudo da Pseudomonarchia Daemonum, publicada como apêndice de uma obra de Johann Weyer — um médico do século XVI que, ironicamente, escreveu contra a caça às bruxas.
A edição de Mathers e Crowley (1904) tornou a Goécia famosa no ocultismo moderno.
Grimorium Verum e Grand Grimoire
Dois grimórios franceses do século XVIII, vendidos em edições baratas. Dão prioridade a três espíritos superiores — Lucifer, Beelzebuth e Astaroth — e prometiam tesouros, amor e sorte.
➜ Ficha completa: o Grimorium Verum
➜ Ficha completa: o Grande Grimório
Livro de São Cipriano
O grimório da tradição portuguesa e galega. Não foi escrito por São Cipriano: a própria lenda diz que o santo queimou os seus livros de magia. As edições impressas conhecidas são do século XIX em diante, mas os arquivos da Inquisição já referem cópias manuscritas no início do século XVII (Coimbra, 1620).
➜ História do Livro de São Cipriano
Mais fichas da biblioteca
➜ Livro Jurado de Honório — a visão de Deus pela magia
➜ Grimório do Papa Honório — o falso grimório papal
➜ Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa
➜ O Livro de Abramelin e o Santo Anjo Guardião
➜ Sexto e Sétimo Livros de Moisés
Outros livros desta secção
Nem tudo o que está aqui é um grimório. Também reunimos obras que ajudam a perceber a história da magia:
➜ Malleus Maleficarum — o manual dos caçadores de bruxas
➜ Hermetismo e os livros de Hermes Trismegisto
➜ Liber Null e a magia do caos
➜ Livro das Sombras, o livro da Wicca
➜ Como fazer um grimório pessoal
➜ Livros de magia recomendados
Como ler um grimório antigo
- Desconfie das datas da capa. «Mênfis, 1517» ou «escrito por Salomão» fazem parte do mito do livro.
- Procure a edição. O mesmo título pode ter conteúdos muito diferentes de uma edição para outra.
- Leia como documento histórico. Os grimórios mostram o que as pessoas acreditavam e desejavam em cada época. Não são manuais com resultados garantidos.
- Prefira edições críticas. As de Joseph H. Peterson, por exemplo, comparam manuscritos e assinalam as diferenças.
Onde ler em domínio público
- Esoteric Archives (Joseph H. Peterson): transcrições da Clavícula, do Grimorium Verum, do Heptameron e de outros textos.
- Biblioteca Nacional Digital: uma edição portuguesa do século XIX do Livro de São Cipriano — purl.pt/16504.
- Internet Archive: digitalizações de edições antigas.
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Fontes
- Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books, Oxford University Press, 2009 — OUP
- Richard Kieckhefer, Magic in the Middle Ages, Cambridge University Press, 1989 — cambridge.org
- Jean-Patrice Boudet, Entre science et nigromance: astrologie, divination et magie dans l'Occident médiéval (XIIe–XVe siècle), Paris, Publications de la Sorbonne, 2006 — HAL
- Hans Dieter Betz (ed.), The Greek Magical Papyri in Translation, Including the Demotic Spells, University of Chicago Press, 1986 (catálogo)
- Picatrix: A Medieval Treatise on Astral Magic, trad. Dan Attrell e David Porreca, a partir da edição latina de David Pingree, Pennsylvania State University Press, 2019 (catálogo)
- Joseph H. Peterson (ed.), The Lesser Key of Solomon: Lemegeton Clavicula Salomonis, Weiser, 2001 (catálogo); Heptameron e outros textos, Esoteric Archives — esotericarchives.com
- José Vieira Leitão, «"Rosa é a Dama de Ouros; o José é o Rei de Ouros": O Livro de São Cipriano na obra de Camilo Castelo Branco», em Camilo Castelo Branco — Génese e Receção, Lisboa, Bertrand, 2023 — academia.edu
- Fontes secundárias: «Greek Magical Papyri», Wikipedia — en.wikipedia.org; «Picatrix», Wikipedia — en.wikipedia.org